Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

O amor estava quieto.

Não morto

isso seria dramático demais.

Apenas guardado

naquela gaveta onde ficam

pilhas que talvez ainda funcionem,

chaves de portas que já não existem

e certas versões de nós mesmos

que ninguém teve coragem de jogar fora.

A vida seguia.

Café pela manhã,

contas no vencimento,

mercado às quintas,

respostas educadas,

sono razoável.

Um funcionamento exemplar.

Quase preocupante.

Até que você reapareceu.

E alguma coisa,

sem consultar a administração,

religou o prédio inteiro.

As luzes acenderam

em cômodos que estavam fechados havia anos.

O coração,

que vinha cumprindo expediente

com a dignidade burocrática

de um funcionário perto da aposentadoria,

levantou da cadeira.

Disse:

— Ah.

Era pouco.

Mas internamente

houve carnaval, terremoto

e alteração no plano diretor.

De repente,

o café tinha gosto.

As músicas voltaram a possuir antecedentes criminais.

Uma mensagem sua

conseguia transformar

uma terça-feira às 14h37

em acontecimento histórico.

E isso é bastante inconveniente.

Porque depois de certa idade

a gente organiza os afetos

em pastas.

Passado.

Resolvido.

Não abrir.

Você chegou

e clicou em *restaurar tudo.

Sem senha.

Sem autorização.

Sem sequer demonstrar

o menor respeito

pela estabilidade emocional conquistada

a duras prestações.

E ainda assim...

que extraordinária desordem.

Voltou a vontade

de chegar antes.

De escolher roupa.

De olhar o telefone

com aquela falsa indiferença

que não convence nem o telefone.

Voltou a rir sozinho.

Coisa gravíssima.

Voltou o desejo

de contar coisas inúteis:

o cachorro atravessando a rua,

a frase ouvida no elevador,

a nuvem parecida com alguma coisa

que provavelmente não parecia com nada.

Porque amor, quando volta de verdade,

não começa nos grandes acontecimentos.

Começa querendo compartilhar

o detalhe.

E talvez seja aí

que se percebe:

não era apenas alguém retornando.

Era a vida

recuperando setores

que haviam sido fechados

por baixa movimentação.

Não se voltou a ser jovem.

Melhor.

Voltou-se a estar vivo

com experiência suficiente

para saber o tamanho do risco

e irresponsabilidade suficiente

para sorrir mesmo assim.

Porque alguns amores

não ressuscitam.

Eles apenas acordam atrasados,

olham em volta,

percebem que perderam alguns anos

e decidem compensar

chegando com intensidade demais.

Francamente,

poderiam ao menos

ter avisado.

Mas talvez perder a graça

fosse justamente isso.

Certas coisas importantes

não batem à porta.

Entram.

Abrem as janelas.

Mudam os móveis de lugar.

E quando alguém finalmente pergunta

o que está acontecendo,

a vida,

que até ontem respondia

“nada de especial”,

sorri,

arruma o cabelo

e diz:

Você voltou.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 11/10/2026
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