O amor estava quieto.
Não morto
isso seria dramático demais.
Apenas guardado
naquela gaveta onde ficam
pilhas que talvez ainda funcionem,
chaves de portas que já não existem
e certas versões de nós mesmos
que ninguém teve coragem de jogar fora.
A vida seguia.
Café pela manhã,
contas no vencimento,
mercado às quintas,
respostas educadas,
sono razoável.
Um funcionamento exemplar.
Quase preocupante.
Até que você reapareceu.
E alguma coisa,
sem consultar a administração,
religou o prédio inteiro.
As luzes acenderam
em cômodos que estavam fechados havia anos.
O coração,
que vinha cumprindo expediente
com a dignidade burocrática
de um funcionário perto da aposentadoria,
levantou da cadeira.
Disse:
— Ah.
Era pouco.
Mas internamente
houve carnaval, terremoto
e alteração no plano diretor.
De repente,
o café tinha gosto.
As músicas voltaram a possuir antecedentes criminais.
Uma mensagem sua
conseguia transformar
uma terça-feira às 14h37
em acontecimento histórico.
E isso é bastante inconveniente.
Porque depois de certa idade
a gente organiza os afetos
em pastas.
Passado.
Resolvido.
Não abrir.
Você chegou
e clicou em *restaurar tudo.
Sem senha.
Sem autorização.
Sem sequer demonstrar
o menor respeito
pela estabilidade emocional conquistada
a duras prestações.
E ainda assim...
que extraordinária desordem.
Voltou a vontade
de chegar antes.
De escolher roupa.
De olhar o telefone
com aquela falsa indiferença
que não convence nem o telefone.
Voltou a rir sozinho.
Coisa gravíssima.
Voltou o desejo
de contar coisas inúteis:
o cachorro atravessando a rua,
a frase ouvida no elevador,
a nuvem parecida com alguma coisa
que provavelmente não parecia com nada.
Porque amor, quando volta de verdade,
não começa nos grandes acontecimentos.
Começa querendo compartilhar
o detalhe.
E talvez seja aí
que se percebe:
não era apenas alguém retornando.
Era a vida
recuperando setores
que haviam sido fechados
por baixa movimentação.
Não se voltou a ser jovem.
Melhor.
Voltou-se a estar vivo
com experiência suficiente
para saber o tamanho do risco
e irresponsabilidade suficiente
para sorrir mesmo assim.
Porque alguns amores
não ressuscitam.
Eles apenas acordam atrasados,
olham em volta,
percebem que perderam alguns anos
e decidem compensar
chegando com intensidade demais.
Francamente,
poderiam ao menos
ter avisado.
Mas talvez perder a graça
fosse justamente isso.
Certas coisas importantes
não batem à porta.
Entram.
Abrem as janelas.
Mudam os móveis de lugar.
E quando alguém finalmente pergunta
o que está acontecendo,
a vida,
que até ontem respondia
“nada de especial”,
sorri,
arruma o cabelo
e diz:
Você voltou.